O primeiro artigo deste blog é uma tradução do original do Professor de Economia Política Alberto Bagnai, uma das poucas vozes criticas da Euro Zona na Itália.
Um pequeno conto que exemplifica as dinâmicas da crise financeira dos países periféricos Europeus com base nos estudos dos economistas Hyman Minsky e Roberto Frenkel.
Um pequeno conto que exemplifica as dinâmicas da crise financeira dos países periféricos Europeus com base nos estudos dos economistas Hyman Minsky e Roberto Frenkel.
Os
protagonistas são dois: o masculino é um país desenvolvido, que
chamaremos "Centro", com uma forte base financeira e
industrial; o feminino é um país, ou um grupo de países,
relativamente atrasado, que chamaremos Periferia".
Entre Centro e Periferia, a atracção é repentina e fatal (especialmente para a Periferia), mas, como em cada enredo que se respeite a diversidade das origens é problemática. Onde, de outra forma, seria o interesse da história? A história é interessante justamente porque os protagonistas são diferentes, muito diferentes.
O Centro é um rapaz moderno, ousado, enquanto a Periferia é uma rapariga à moda antiga, poupadora, sábia e um pouco "reprimida”. Estão a pensar em que? Não, não é sexualmente reprimida! Isso, ao centro, não interessa. O centro é virtuoso. Apedreja as adúlteras (depois de ter ido com elas para a cama).
Não, a Periferia é, como os economistas dizem, um pouco reprimida financeiramente, o que significa, resumidamente, que na periferia o Estado mantém um grau de controle sobre os circuitos de poupança e investimento.
Por exemplo, ouçam que ideia tão esquisita, na periferia a política monetária é considerada como uma ferramenta à disposição do governo, para ser mantida, ainda que de forma mediada, sob o controle da soberania democrática do povo. Ouviram bem: é exactamente aquilo que os intelectuais da nossa esquerda chamariam de "populismo", que é o termo com que definem qualquer circunstância em que as pessoas não fazem o que eles decidiram fazer. O que é que o povo sabe da moeda?
A periferia é reprimida e populista, e daqui deriva uma série de práticas arcaicas: o banco central não é "independente" (que significa independente dos trabalhadores, é óbvio, não dos capitalistas), e uma série de instituições financeiras (bancos, fundos de reforma) estão sob o controle directo ou indirecto do Estado; o preço do dinheiro, por isso, não é fixado ao arbítrio do mercado, mas é gerido, dirigido pelo Estado; e para alcançar esta meta, os movimentos internacionais de capitais são controlados, porque senão os capitais fugiriam em busca de melhores remunerações em outros lugares; não só os fluxos de saída, os fluxos de entrada também são controlados pela periferia reprimida: a ideia moderna de que as empresas (públicas ou privadas) nacionais estão aí para serem colocados à venda à melhor oferta, essa ideia tão avançada na periferia ainda não chegou; e isto vale especialmente no sector financeiro, onde aos bancos estrangeiros é aplicado aquele princípio que os países desenvolvidos aplicam aos trabalhadores estrangeiros, "Eu não sou racista, desde que cada um fique na sua casa"; um princípio que da arrepios quando é aplicado as pessoas, e também quando não é aplicado aos bancos; no entanto, olha só, a periferia é tão reprimida que até as instituições financeiras nacionais são controlados pelo Estado, que impõe restrições às suas actividades, o que significa que estas instituições são obrigadas a comprar uma certa quantidade de dívida pública; e também impõe limites máximos de crédito, o que significa que os bancos não podem emprestar muito, ou seja que os privados não podem endividar-se demasiado; até porque o próprio Estado não se endivida muito, e até a sua dívida em relação ao PIB diminui, porque as taxas de juros são mantidas sob controle, e então não é preciso elevar a carga tributária e reduzir a despesa para os serviços essenciais, para correr atrás da explosão da despesa para os juros (o que significa redistribuição do rendimento dos contribuintes, que contribuem, para os detentores dos títulos da dívida... que muitas vezes não contribuem).
Pois: esta é a repressão financeira. E não está explicada pelo Sigmund Freud, mas pela Carmen Reinhart (entre outros)
Entre Centro e Periferia, a atracção é repentina e fatal (especialmente para a Periferia), mas, como em cada enredo que se respeite a diversidade das origens é problemática. Onde, de outra forma, seria o interesse da história? A história é interessante justamente porque os protagonistas são diferentes, muito diferentes.
O Centro é um rapaz moderno, ousado, enquanto a Periferia é uma rapariga à moda antiga, poupadora, sábia e um pouco "reprimida”. Estão a pensar em que? Não, não é sexualmente reprimida! Isso, ao centro, não interessa. O centro é virtuoso. Apedreja as adúlteras (depois de ter ido com elas para a cama).
Não, a Periferia é, como os economistas dizem, um pouco reprimida financeiramente, o que significa, resumidamente, que na periferia o Estado mantém um grau de controle sobre os circuitos de poupança e investimento.
Por exemplo, ouçam que ideia tão esquisita, na periferia a política monetária é considerada como uma ferramenta à disposição do governo, para ser mantida, ainda que de forma mediada, sob o controle da soberania democrática do povo. Ouviram bem: é exactamente aquilo que os intelectuais da nossa esquerda chamariam de "populismo", que é o termo com que definem qualquer circunstância em que as pessoas não fazem o que eles decidiram fazer. O que é que o povo sabe da moeda?
A periferia é reprimida e populista, e daqui deriva uma série de práticas arcaicas: o banco central não é "independente" (que significa independente dos trabalhadores, é óbvio, não dos capitalistas), e uma série de instituições financeiras (bancos, fundos de reforma) estão sob o controle directo ou indirecto do Estado; o preço do dinheiro, por isso, não é fixado ao arbítrio do mercado, mas é gerido, dirigido pelo Estado; e para alcançar esta meta, os movimentos internacionais de capitais são controlados, porque senão os capitais fugiriam em busca de melhores remunerações em outros lugares; não só os fluxos de saída, os fluxos de entrada também são controlados pela periferia reprimida: a ideia moderna de que as empresas (públicas ou privadas) nacionais estão aí para serem colocados à venda à melhor oferta, essa ideia tão avançada na periferia ainda não chegou; e isto vale especialmente no sector financeiro, onde aos bancos estrangeiros é aplicado aquele princípio que os países desenvolvidos aplicam aos trabalhadores estrangeiros, "Eu não sou racista, desde que cada um fique na sua casa"; um princípio que da arrepios quando é aplicado as pessoas, e também quando não é aplicado aos bancos; no entanto, olha só, a periferia é tão reprimida que até as instituições financeiras nacionais são controlados pelo Estado, que impõe restrições às suas actividades, o que significa que estas instituições são obrigadas a comprar uma certa quantidade de dívida pública; e também impõe limites máximos de crédito, o que significa que os bancos não podem emprestar muito, ou seja que os privados não podem endividar-se demasiado; até porque o próprio Estado não se endivida muito, e até a sua dívida em relação ao PIB diminui, porque as taxas de juros são mantidas sob controle, e então não é preciso elevar a carga tributária e reduzir a despesa para os serviços essenciais, para correr atrás da explosão da despesa para os juros (o que significa redistribuição do rendimento dos contribuintes, que contribuem, para os detentores dos títulos da dívida... que muitas vezes não contribuem).
Pois: esta é a repressão financeira. E não está explicada pelo Sigmund Freud, mas pela Carmen Reinhart (entre outros)
Alguém,
mais cortês, chama-a de "regulação" dos mercados
financeiros.
Não parece um mundo muito estranho, muito arcaico? Bem, têm a memória curta: até os anos ‘80 este mundo é o nosso mundo, o mundo ocidental, e agora é claro que precisa voltar a sê-lo.
No entanto, aquele mundo já não é nosso, não é assim que funciona agora: o Centro, que é um rapaz evoluído, não pode simplesmente apresentar a seus pais, os mercados, uma rapariga tão fora da moda! E então o centro "sugere" à Periferia alguma reforma, na verdade, duas reformas, por acaso sempre as mesmas: a adopção de uma taxa de câmbio fixa e a liberalização dos mercados financeiros, e também, a jusante, dos movimentos de capitais internacionais.
O Centro, que é um bocado esperto, obtém assim duas vantagens.
Não parece um mundo muito estranho, muito arcaico? Bem, têm a memória curta: até os anos ‘80 este mundo é o nosso mundo, o mundo ocidental, e agora é claro que precisa voltar a sê-lo.
No entanto, aquele mundo já não é nosso, não é assim que funciona agora: o Centro, que é um rapaz evoluído, não pode simplesmente apresentar a seus pais, os mercados, uma rapariga tão fora da moda! E então o centro "sugere" à Periferia alguma reforma, na verdade, duas reformas, por acaso sempre as mesmas: a adopção de uma taxa de câmbio fixa e a liberalização dos mercados financeiros, e também, a jusante, dos movimentos de capitais internacionais.
O Centro, que é um bocado esperto, obtém assim duas vantagens.
Vantagem
número um: na periferia a liberalização dos mercados financeiros,
necessariamente, eleva as taxas de juros. O Estado já não pode
contar com alguns dos compradores institucionais dos seus títulos (o
Banco central, que torna-se "independente", e os bancos e
fundos de reforma, que gradualmente caem nas mãos do sector
privado), e por isso, para financiar-se, deve oferecer taxas de juro
mais elevadas.
Mas também as taxas do sector privado são liberalizadas e, portanto, tendem a crescer. Na periferia é preciso realmente capital, porque, como já foi dito, a sua base industrial é atrasada, o que implica necessariamente que as taxas de juros tendam a ser elevadas. Mas antes, quando a periferia estava reprimida, o Estado, de alguma forma, controlava o preço do dinheiro, mantendo-o dentro de limites determinados por ele. É claro que, desta forma, o dinheiro custava relativamente pouco, mas se a economia sobre aquecia, porque os empreendedores endividavam-se demasiado, o Estado podia intervir, talvez com ferramentas de tipo quantitativo, como o limite máximo dos empréstimos: se, por um determinado preço do dinheiro, o sector privado estava a endividar-se muito, financiando em dívida a sua procura de bens, o Estado simplesmente proibia aos bancos de emprestar mais do que um certo limite. Mas os controles quantitativos são abolidos: que coisa feia, sabe a economia planificada, não somos bolcheviques! O mercado sabe o que fazer, deixe que a oferta e a procura sejam movidas pelos preços, liberalizem as taxas! Então, para evitar que o crédito concedido seja muito será preciso, necessariamente, permitir que a taxa de juros suba. É claro: desta forma os empreendedores locais pensam duas vezes antes de endividar-se a taxas mais elevadas (a lei da oferta e da procura: custa mais, compro menos).
Mas… talvez esqueceram de um detalhe. Pois! Liberalizamos também os movimentos internacionais de capital. E então o que acontece? O que acontece é que os credores do centro, os grandes bancos do sistema maduro, atraídos por taxas mais elevadas, exportam capitais para a periferia. Eles têm capitais, e muitos! O centro tem uma indústria que ganha bem, e os industriais não estão acostumados a manter o dinheiro debaixo do colchão, sabem? Assim, os bancos centrais, que têm dinheiro, deslocam-no na periferia, onde o Estado e os particulares pagam taxas de juros mais altas do que no centro, maduro, cheio de capitais.
Como é que fazem? De mil maneiras: abrem filiais dos seus bancos na periferia (agora podem); abrem financeiras que gerem poupanças ou oferecem crédito ao consumo (agora podem); as vezes integram estas financeiras dentro das cadeias de distribuição (supermercados, concessionarias) que, entretanto, adquiriram (agora podem); e podem sempre intervir no mercado de acções e comprar pacotes de controle de empresas nacionais (agora podem); e se alguma empresa nacional, que faz bons negócios, era, infelizmente, pública, não há problema: compram dois ou três jornais (agora podem) e um pouco de ministros (isto sempre foi possível), e começam a espalhar 24 horas por dia a ideia que o Estado é ineficiente e fonte de todo o mal, e que por isso é preciso privatizar empresas públicas, começando por aquelas que funcionam, e está feito.
Economistas ilustres das colunas de jornais prestigiosos, acenarão satisfeitos.
Mas porque começamos pela fixação da taxa de câmbio? É simples! Porque os capitalistas do centro querem (legitimamente) ganhar o spread, a diferença entre as taxas de juro, sem correr o risco da taxa de câmbio ou seja, sem correr o risco que a periferia se desvalorize, como seria natural, no fundo, para um país que se torne um importador de capital e, portanto, de mercadorias. Afinal, não há nada de errado: jogos inocentes, desde que se pare no momento certo.
E então, pensem por um momento sobre isso. Se as taxas de juro fossem as mesmas no centro e na periferia, o que é que acontece fixando a taxa de câmbio? É simples: o spread vai aumentar. "O que?" vão dizer. "Ao adoptar uma taxa de câmbio realística não vão os spreads cair, como aconteceu na Europa, onde os gregos e os espanhóis foram capazes de beneficiar de taxas alemãs?" Esperem um minuto: à vossa argumentação está a faltar um pedaço.
Se fizer um investimento em outra moeda, no rendimento geral também devem ser consideradas a reavaliação ou desvalorização esperadas para esta moeda. Exemplo: antes do euro, o alemão que emprestava ao espanhol tinha que olhar não só para as taxas de juros (mais elevadas em Espanha), mas também para a flutuação do câmbio. É inútil ganhar um ponto de juros emprestando ao Carlos em vez de Hans, se Carlos desvaloriza, digamos, 4%, certo? Vão dizer: “mas quando falamos de spread só estamos a comparar 2 taxas de juros, não a falar sobre o câmbio. Pois: hoje o câmbio já não existe: é de 1 euro (espanhol) para 1 euro (alemão). Por isso não falamos de câmbio, porque o câmbio já não existe. Mas quando existia falava-se dele.
Querem um exemplo? Em 1998, um ano antes da entrada para a zona euro, a taxa de juros de longo prazo era de 4,8 na Espanha e 4,6 na Alemanha (IFS dados de 2010), e, assim, o spread era de 0,2, ou seja 20 pontos base. Mas, como a peseta em 1998 perdeu cerca de um 0,2% sobre a marca, o spread real, ou seja, ajustado por depreciação, foi negativo: -1,0 = 0,2-1,2, ou seja, para o investidor alemão não convinha emprestar ao Carlos. Melhor emprestar ao Hans. Em 1999, ambas as taxas desceram: Alemanha 4,7, Espanha 4,5. O spread era de 0,2, então, como no ano anterior. E a desvalorização? Acordem! Em 1999, havia o euro, por isso não havia necessidade de corrigir por causa da desvalorização. Sabem o que eu quero dizer? Significa que o spread da Espanha passou de -1,0 a 0,2, ou seja aumentou de 1,2, 120 pontos. Com o euro, melhor emprestar ao Carlos, não? Parece pouco, eu sei, para mim ou vocês que movimentamos uma conta bancária em três zeros (se tudo correr bem): mas se movimentássemos milhões de euros, esta diferença de rendimentos se tornaria significativa, e vocês levariam os seus tostões para onde é positiva. Por exemplo, na Espanha.
A chegada de liquidez na periferia abre novas oportunidades de investimento e consumo, já que o fluxo de dinheiro do exterior, lentamente, após a fase inicial, faz diminuir as taxas de juros e spreads (a lei da oferta e da procura) e que a liberalização dos mercados financeiros cria novas possibilidades de despesa. Num mundo reprimido não se paga um televisor em prestações. No mercado livre, sim. Os economistas chamam de "mercados financeiros perfeitos", aqueles onde é possível ter tudo e já, porque sempre vamos encontrar alguém que nos financia, obviamente, pagando um preço. Assim, a periferia está entusiasmada: parece tocar o céu com um dedo; excitada pelo capital do centro atinge alturas de prazer consumista para ela insuspeitas até alguns meses atrás. Orgasmos múltiplos, lubrificados pela taxa: carro novo, geladeira nova, nova TV... Sem mencionar a possibilidade de empréstimos para primeiras, e até segundas casas (segundas, porque muitas vezes, na periferia, as famílias já tem uma)...
Como podem ver, aqui começa a segunda vantagem para o centro: ao drogar, com os seus capitais, o crescimento dos rendimentos da periferia, o centro assegura-se um mercado para os seus produtos, que os cidadãos da periferia podem agora comprar graças aos efeitos directos e indirectos de um acesso ao crédito mais fácil.
Em suma: é a mesma história. O centro serve a bebida, a periferia, distraída (ok, nem sempre), bebe, e concede ao centro os favores extremos... dos seus cidadãos, que compram, compram, compram, absorvendo o excedente do sistema industrial maduro do centro.
Começa a parte triste da história.
A periferia está inchada.
E aqui estão enganados: não é uma gravidez, mas uma bolha.
Sabem o que é uma gravidez. Mas têm a certeza de saber o que é uma bolha? Como defini-la? Uma bolha é o desvio do preço de uma actividade financeira do seu valor fundamental. Vou explicar. O valor presente de uma acção, em princípio, depende do valor de dividendos futuros, do rendimento que a acção irá garantir no longo prazo. Um valor incerto, é claro. A acção, no entanto, também pode ser comprada e vendida livremente. Agora acontece que se alguém espera que os retornos futuros vão crescer, vai oferecer mais para comprar uma determinada acção. E se alguém espera que outro vai oferecer mais para compra-la, vai tentar compra-la, para vendê-la quando o outro vai estar disposto a pagar mais, mas em fazê-lo (ou seja, comprá-la) ajuda a tornar o preço mais alto. Chama-se "expectativa que se auto-realiza" (self-fulfilling expectation). Agora, já que ao primeiro que pensou assim os negócios vão bem, naturalmente, um segundo, e depois em terceiro, e em seguida, um quarto, vão ficar atrás pedindo aquela acção, cujo preço é empurrado para cima por uma procura que já não tem nenhuma relação com os rendimentos esperados a longo prazo (dividendos futuros), mas apenas com a expectativa de todos que o preço suba.
Entendem o que significa que o preço se afasta do valor fundamental? A matemática financeira nos ensina que com taxas de juros de 5% faz sentido pagar 20 um pedaço de papel que cada ano paga um rendimento de 1. Mas, se por alguma razão, todos querem aquele pedaço de papel, você talvez vai paga-lo 100, e fazê-lo de bom grado, porque achar que um dia depois vai vendê-lo para 150. Deus! 50% em dois dias, comparado com 5% em um ano?
Mas quanto podem ser longas 48 horas sabe bem quem tinha acções no dia 25 de Outubro de 1929, a espera dos mercados reabrirem na segunda-feira seguinte; sim, aquela que entrou para a história como "segunda-feira negra".
E a bolha imobiliária? Simples: voltem para trás de algumas linhas, substituam à palavra "acção", a palavra "apartamento", e à palavra "rendimento" a palavra "renda", e aqui está a bolha imobiliária. Que é, no entanto, ligeiramente diferente: já que os apartamentos são menos "líquido" de uma acção: não chega ligar para o vosso promotor financeiro para se livrar deles…
Resumindo, a periferia, graças ao capital estrangeiro cresce. O consumo cresce, os investimentos também crescem. Atraídos pelo seu crescimento, os mercados deslocam para a periferia capitais de forma crescente, até porque o crescimento drogado pela dívida privada (capital estrangeiro emprestado a famílias e empresas) melhora as finanças públicas: a rácio dívida pública / PIB estabiliza ou desce. O estúpido (ou inteligente?) que acha que "a única dívida é aquela pública" fica tranquilo. Bem virtuosa parece a periferia aos xerifes (ingénuos ou coniventes?) Do FMI! Veja? A periferia é uma boa menina, fez o que nos, xerifes, dissemos: virou "credível" (eufemismo sinistro), tornou-se um pouquinho puta, ou seja liberalizada, e os resultados são visíveis.
Liberdade (financeira), quantos crimes se cometem em teu nome!
O influxo de capital não é mais guiado pelo spread, a diferença entre as taxas de juros da periferia e do centro. Pode até acontecer (mas nem sempre) que esta diferença se reduza: a mobilidade de capital, como dizem os livros dos economistas, iguala os retornos de um país para outro (a lei da oferta e da procura). Nem sempre é assim, mas mesmo se fosse, o que agora atrai o capital para a periferia não é a taxa de juros, o rendimento a longo prazo, mas o ganho de capital, o crescimento convulso do preço das actividades.
Na economia drogada a febre cresce: o acesso ao crédito fácil faz aumentar a inflação, e se no início o mercado exterior era procurado para bens de luxo, com o tempo, os produtos estrangeiros tornam-se competitivos mesmo na faixas mais baixas, porque os preços domésticos cresceram; assim se aprofunda o défice comercial, e é preciso novo capital estrangeiro para financiá-lo. Além disso, como já foi dito antes, um importador de capital também é um importador de produtos.
Isso mesmo: drogada; a periferia está viciada em capital estrangeiro, e a dose deve ser sempre maior para fazer efeito. Não há crime contra si própria que a periferia não perpetre para obtê-lo. Prostitui-se em todas maneiras, ao destruir em poucos anos, o estilo de vida e as expectativas razoáveis de rendimento de seus cidadãos, que, de um dia para outro, são privados de direitos adquiridos, como assistência e reformas; ao desmantelar o sistema industrial, de que já não precisa, porque os fundos chegam, e chegarão sempre, e será sempre possível comprar no exterior, onde produzem muito melhor o que já não é conveniente produzir em casa; ao dar o melhor de si, toda ela, ao centro.
"Me amas, Centro?" "Claro, Periferia" "E vai me amar sempre, certo?" "É claro, estúpida, que perguntas são! Falando nisso, o que é que vais fazer com aquela indústria do petróleo, como é que se chama? A CNP, a companhia nacional de petróleo ... Vamos lá, me dê, me dê a CNP, que por sua vez terá um influxo de capital que nem vais imaginar!" "Mas tenho que te dar isso também?" " Já me deste tudo tudo!" "Mas a mãe me disse..." “A mãe? já leste o Sólon e o Licurgo nas colunas do Jornal? Vê como é que se faz a vender a CNP?" "Mas eu tenho um pouco de medo..." "Mas eu te amo, Periferia. Vamos, diz-me que sim, e vais ver quanta liquidez vou injectar no teu circuito... "
A infeliz respondeu.
Mas o fato é que existe uma lei, não sei se da economia ou da própria natureza, que diz "o que é demais, molesta". Em economia, acho que seja chamada “lei dos rendimentos decrescentes”. Encontrar usos produtivos para quantias de capital enorme e crescente não é fácil, e os influxo de capital (sim, mesmo aqueles da cuja falta os nossos Quisling muito se queixam na Itália) são, para o país que os recebe, dívidas externas, que é preciso reembolsar, mas que, quanto mais crescem menos produzem os rendimentos necessários para pagá-los de volta.
Ah, não sabiam? Como é possível? Vocês? Os “Estereotipistas”, os “esparguete-liberais”, os arautos do mercado livre e da economia ortodoxa, ignoram essa outra verdade simples: não existem almoços grátis, no free lunch, não podem obter algo por nada. Uhm Entendo, entendo... pois é, parece-me te lido algo assim nos jornais italianos. Sabem, eu agora só uso o jornal para embrulhar peixe, e assim, entre uma escama de robalo e um esboço de tinta de choco reparei de facto que na Itália há um bando de idiotas que pensam que o dinheiro vem grátis do estrangeiro, que os investidores estrangeiros compram acções italianas, ou de outra forma adquirirem o controle de empresas italianas, porque nos somos agradáveis, criativos, enfim, porque até nós amam. E por isso os fluxos de capitais são bons: nos precisamos deles, eles dão, e a história termina aí. Mas eu pensei que tinha lido errado, você sabe, com pressa, a panela no fogão, os hóspedes no terraço ... Mas você me diz que há realmente alguém que é tão estúpido a ponto de pensar que o estrangeiro ofereça capitais como presentes!? E que a venda em saldos de empresas públicas e privadas nacionais para os investidores estrangeiros não só não deve ser impedida, mas mesmo encorajada!? E até deixam escrever isto nos jornais!?
Mas também as taxas do sector privado são liberalizadas e, portanto, tendem a crescer. Na periferia é preciso realmente capital, porque, como já foi dito, a sua base industrial é atrasada, o que implica necessariamente que as taxas de juros tendam a ser elevadas. Mas antes, quando a periferia estava reprimida, o Estado, de alguma forma, controlava o preço do dinheiro, mantendo-o dentro de limites determinados por ele. É claro que, desta forma, o dinheiro custava relativamente pouco, mas se a economia sobre aquecia, porque os empreendedores endividavam-se demasiado, o Estado podia intervir, talvez com ferramentas de tipo quantitativo, como o limite máximo dos empréstimos: se, por um determinado preço do dinheiro, o sector privado estava a endividar-se muito, financiando em dívida a sua procura de bens, o Estado simplesmente proibia aos bancos de emprestar mais do que um certo limite. Mas os controles quantitativos são abolidos: que coisa feia, sabe a economia planificada, não somos bolcheviques! O mercado sabe o que fazer, deixe que a oferta e a procura sejam movidas pelos preços, liberalizem as taxas! Então, para evitar que o crédito concedido seja muito será preciso, necessariamente, permitir que a taxa de juros suba. É claro: desta forma os empreendedores locais pensam duas vezes antes de endividar-se a taxas mais elevadas (a lei da oferta e da procura: custa mais, compro menos).
Mas… talvez esqueceram de um detalhe. Pois! Liberalizamos também os movimentos internacionais de capital. E então o que acontece? O que acontece é que os credores do centro, os grandes bancos do sistema maduro, atraídos por taxas mais elevadas, exportam capitais para a periferia. Eles têm capitais, e muitos! O centro tem uma indústria que ganha bem, e os industriais não estão acostumados a manter o dinheiro debaixo do colchão, sabem? Assim, os bancos centrais, que têm dinheiro, deslocam-no na periferia, onde o Estado e os particulares pagam taxas de juros mais altas do que no centro, maduro, cheio de capitais.
Como é que fazem? De mil maneiras: abrem filiais dos seus bancos na periferia (agora podem); abrem financeiras que gerem poupanças ou oferecem crédito ao consumo (agora podem); as vezes integram estas financeiras dentro das cadeias de distribuição (supermercados, concessionarias) que, entretanto, adquiriram (agora podem); e podem sempre intervir no mercado de acções e comprar pacotes de controle de empresas nacionais (agora podem); e se alguma empresa nacional, que faz bons negócios, era, infelizmente, pública, não há problema: compram dois ou três jornais (agora podem) e um pouco de ministros (isto sempre foi possível), e começam a espalhar 24 horas por dia a ideia que o Estado é ineficiente e fonte de todo o mal, e que por isso é preciso privatizar empresas públicas, começando por aquelas que funcionam, e está feito.
Economistas ilustres das colunas de jornais prestigiosos, acenarão satisfeitos.
Mas porque começamos pela fixação da taxa de câmbio? É simples! Porque os capitalistas do centro querem (legitimamente) ganhar o spread, a diferença entre as taxas de juro, sem correr o risco da taxa de câmbio ou seja, sem correr o risco que a periferia se desvalorize, como seria natural, no fundo, para um país que se torne um importador de capital e, portanto, de mercadorias. Afinal, não há nada de errado: jogos inocentes, desde que se pare no momento certo.
E então, pensem por um momento sobre isso. Se as taxas de juro fossem as mesmas no centro e na periferia, o que é que acontece fixando a taxa de câmbio? É simples: o spread vai aumentar. "O que?" vão dizer. "Ao adoptar uma taxa de câmbio realística não vão os spreads cair, como aconteceu na Europa, onde os gregos e os espanhóis foram capazes de beneficiar de taxas alemãs?" Esperem um minuto: à vossa argumentação está a faltar um pedaço.
Se fizer um investimento em outra moeda, no rendimento geral também devem ser consideradas a reavaliação ou desvalorização esperadas para esta moeda. Exemplo: antes do euro, o alemão que emprestava ao espanhol tinha que olhar não só para as taxas de juros (mais elevadas em Espanha), mas também para a flutuação do câmbio. É inútil ganhar um ponto de juros emprestando ao Carlos em vez de Hans, se Carlos desvaloriza, digamos, 4%, certo? Vão dizer: “mas quando falamos de spread só estamos a comparar 2 taxas de juros, não a falar sobre o câmbio. Pois: hoje o câmbio já não existe: é de 1 euro (espanhol) para 1 euro (alemão). Por isso não falamos de câmbio, porque o câmbio já não existe. Mas quando existia falava-se dele.
Querem um exemplo? Em 1998, um ano antes da entrada para a zona euro, a taxa de juros de longo prazo era de 4,8 na Espanha e 4,6 na Alemanha (IFS dados de 2010), e, assim, o spread era de 0,2, ou seja 20 pontos base. Mas, como a peseta em 1998 perdeu cerca de um 0,2% sobre a marca, o spread real, ou seja, ajustado por depreciação, foi negativo: -1,0 = 0,2-1,2, ou seja, para o investidor alemão não convinha emprestar ao Carlos. Melhor emprestar ao Hans. Em 1999, ambas as taxas desceram: Alemanha 4,7, Espanha 4,5. O spread era de 0,2, então, como no ano anterior. E a desvalorização? Acordem! Em 1999, havia o euro, por isso não havia necessidade de corrigir por causa da desvalorização. Sabem o que eu quero dizer? Significa que o spread da Espanha passou de -1,0 a 0,2, ou seja aumentou de 1,2, 120 pontos. Com o euro, melhor emprestar ao Carlos, não? Parece pouco, eu sei, para mim ou vocês que movimentamos uma conta bancária em três zeros (se tudo correr bem): mas se movimentássemos milhões de euros, esta diferença de rendimentos se tornaria significativa, e vocês levariam os seus tostões para onde é positiva. Por exemplo, na Espanha.
A chegada de liquidez na periferia abre novas oportunidades de investimento e consumo, já que o fluxo de dinheiro do exterior, lentamente, após a fase inicial, faz diminuir as taxas de juros e spreads (a lei da oferta e da procura) e que a liberalização dos mercados financeiros cria novas possibilidades de despesa. Num mundo reprimido não se paga um televisor em prestações. No mercado livre, sim. Os economistas chamam de "mercados financeiros perfeitos", aqueles onde é possível ter tudo e já, porque sempre vamos encontrar alguém que nos financia, obviamente, pagando um preço. Assim, a periferia está entusiasmada: parece tocar o céu com um dedo; excitada pelo capital do centro atinge alturas de prazer consumista para ela insuspeitas até alguns meses atrás. Orgasmos múltiplos, lubrificados pela taxa: carro novo, geladeira nova, nova TV... Sem mencionar a possibilidade de empréstimos para primeiras, e até segundas casas (segundas, porque muitas vezes, na periferia, as famílias já tem uma)...
Como podem ver, aqui começa a segunda vantagem para o centro: ao drogar, com os seus capitais, o crescimento dos rendimentos da periferia, o centro assegura-se um mercado para os seus produtos, que os cidadãos da periferia podem agora comprar graças aos efeitos directos e indirectos de um acesso ao crédito mais fácil.
Em suma: é a mesma história. O centro serve a bebida, a periferia, distraída (ok, nem sempre), bebe, e concede ao centro os favores extremos... dos seus cidadãos, que compram, compram, compram, absorvendo o excedente do sistema industrial maduro do centro.
Começa a parte triste da história.
A periferia está inchada.
E aqui estão enganados: não é uma gravidez, mas uma bolha.
Sabem o que é uma gravidez. Mas têm a certeza de saber o que é uma bolha? Como defini-la? Uma bolha é o desvio do preço de uma actividade financeira do seu valor fundamental. Vou explicar. O valor presente de uma acção, em princípio, depende do valor de dividendos futuros, do rendimento que a acção irá garantir no longo prazo. Um valor incerto, é claro. A acção, no entanto, também pode ser comprada e vendida livremente. Agora acontece que se alguém espera que os retornos futuros vão crescer, vai oferecer mais para comprar uma determinada acção. E se alguém espera que outro vai oferecer mais para compra-la, vai tentar compra-la, para vendê-la quando o outro vai estar disposto a pagar mais, mas em fazê-lo (ou seja, comprá-la) ajuda a tornar o preço mais alto. Chama-se "expectativa que se auto-realiza" (self-fulfilling expectation). Agora, já que ao primeiro que pensou assim os negócios vão bem, naturalmente, um segundo, e depois em terceiro, e em seguida, um quarto, vão ficar atrás pedindo aquela acção, cujo preço é empurrado para cima por uma procura que já não tem nenhuma relação com os rendimentos esperados a longo prazo (dividendos futuros), mas apenas com a expectativa de todos que o preço suba.
Entendem o que significa que o preço se afasta do valor fundamental? A matemática financeira nos ensina que com taxas de juros de 5% faz sentido pagar 20 um pedaço de papel que cada ano paga um rendimento de 1. Mas, se por alguma razão, todos querem aquele pedaço de papel, você talvez vai paga-lo 100, e fazê-lo de bom grado, porque achar que um dia depois vai vendê-lo para 150. Deus! 50% em dois dias, comparado com 5% em um ano?
Mas quanto podem ser longas 48 horas sabe bem quem tinha acções no dia 25 de Outubro de 1929, a espera dos mercados reabrirem na segunda-feira seguinte; sim, aquela que entrou para a história como "segunda-feira negra".
E a bolha imobiliária? Simples: voltem para trás de algumas linhas, substituam à palavra "acção", a palavra "apartamento", e à palavra "rendimento" a palavra "renda", e aqui está a bolha imobiliária. Que é, no entanto, ligeiramente diferente: já que os apartamentos são menos "líquido" de uma acção: não chega ligar para o vosso promotor financeiro para se livrar deles…
Resumindo, a periferia, graças ao capital estrangeiro cresce. O consumo cresce, os investimentos também crescem. Atraídos pelo seu crescimento, os mercados deslocam para a periferia capitais de forma crescente, até porque o crescimento drogado pela dívida privada (capital estrangeiro emprestado a famílias e empresas) melhora as finanças públicas: a rácio dívida pública / PIB estabiliza ou desce. O estúpido (ou inteligente?) que acha que "a única dívida é aquela pública" fica tranquilo. Bem virtuosa parece a periferia aos xerifes (ingénuos ou coniventes?) Do FMI! Veja? A periferia é uma boa menina, fez o que nos, xerifes, dissemos: virou "credível" (eufemismo sinistro), tornou-se um pouquinho puta, ou seja liberalizada, e os resultados são visíveis.
Liberdade (financeira), quantos crimes se cometem em teu nome!
O influxo de capital não é mais guiado pelo spread, a diferença entre as taxas de juros da periferia e do centro. Pode até acontecer (mas nem sempre) que esta diferença se reduza: a mobilidade de capital, como dizem os livros dos economistas, iguala os retornos de um país para outro (a lei da oferta e da procura). Nem sempre é assim, mas mesmo se fosse, o que agora atrai o capital para a periferia não é a taxa de juros, o rendimento a longo prazo, mas o ganho de capital, o crescimento convulso do preço das actividades.
Na economia drogada a febre cresce: o acesso ao crédito fácil faz aumentar a inflação, e se no início o mercado exterior era procurado para bens de luxo, com o tempo, os produtos estrangeiros tornam-se competitivos mesmo na faixas mais baixas, porque os preços domésticos cresceram; assim se aprofunda o défice comercial, e é preciso novo capital estrangeiro para financiá-lo. Além disso, como já foi dito antes, um importador de capital também é um importador de produtos.
Isso mesmo: drogada; a periferia está viciada em capital estrangeiro, e a dose deve ser sempre maior para fazer efeito. Não há crime contra si própria que a periferia não perpetre para obtê-lo. Prostitui-se em todas maneiras, ao destruir em poucos anos, o estilo de vida e as expectativas razoáveis de rendimento de seus cidadãos, que, de um dia para outro, são privados de direitos adquiridos, como assistência e reformas; ao desmantelar o sistema industrial, de que já não precisa, porque os fundos chegam, e chegarão sempre, e será sempre possível comprar no exterior, onde produzem muito melhor o que já não é conveniente produzir em casa; ao dar o melhor de si, toda ela, ao centro.
"Me amas, Centro?" "Claro, Periferia" "E vai me amar sempre, certo?" "É claro, estúpida, que perguntas são! Falando nisso, o que é que vais fazer com aquela indústria do petróleo, como é que se chama? A CNP, a companhia nacional de petróleo ... Vamos lá, me dê, me dê a CNP, que por sua vez terá um influxo de capital que nem vais imaginar!" "Mas tenho que te dar isso também?" " Já me deste tudo tudo!" "Mas a mãe me disse..." “A mãe? já leste o Sólon e o Licurgo nas colunas do Jornal? Vê como é que se faz a vender a CNP?" "Mas eu tenho um pouco de medo..." "Mas eu te amo, Periferia. Vamos, diz-me que sim, e vais ver quanta liquidez vou injectar no teu circuito... "
A infeliz respondeu.
Mas o fato é que existe uma lei, não sei se da economia ou da própria natureza, que diz "o que é demais, molesta". Em economia, acho que seja chamada “lei dos rendimentos decrescentes”. Encontrar usos produtivos para quantias de capital enorme e crescente não é fácil, e os influxo de capital (sim, mesmo aqueles da cuja falta os nossos Quisling muito se queixam na Itália) são, para o país que os recebe, dívidas externas, que é preciso reembolsar, mas que, quanto mais crescem menos produzem os rendimentos necessários para pagá-los de volta.
Ah, não sabiam? Como é possível? Vocês? Os “Estereotipistas”, os “esparguete-liberais”, os arautos do mercado livre e da economia ortodoxa, ignoram essa outra verdade simples: não existem almoços grátis, no free lunch, não podem obter algo por nada. Uhm Entendo, entendo... pois é, parece-me te lido algo assim nos jornais italianos. Sabem, eu agora só uso o jornal para embrulhar peixe, e assim, entre uma escama de robalo e um esboço de tinta de choco reparei de facto que na Itália há um bando de idiotas que pensam que o dinheiro vem grátis do estrangeiro, que os investidores estrangeiros compram acções italianas, ou de outra forma adquirirem o controle de empresas italianas, porque nos somos agradáveis, criativos, enfim, porque até nós amam. E por isso os fluxos de capitais são bons: nos precisamos deles, eles dão, e a história termina aí. Mas eu pensei que tinha lido errado, você sabe, com pressa, a panela no fogão, os hóspedes no terraço ... Mas você me diz que há realmente alguém que é tão estúpido a ponto de pensar que o estrangeiro ofereça capitais como presentes!? E que a venda em saldos de empresas públicas e privadas nacionais para os investidores estrangeiros não só não deve ser impedida, mas mesmo encorajada!? E até deixam escrever isto nos jornais!?
A
partir de amanhã, com aqueles jornais nem sequer vou embrulhar o
peixe! O nobre robalo não merece uma mortalha tão vil ...
Deixe-me explicar: quem empresta sabe que deve receber o seu dinheiro de volta com juros; não pensa em oferece-lo, não é burro! E isso vale para todos os tipos de empréstimos, entendem?
Exemplo: quem compra uma empresa na Periferia, não o faz para trazer emprego e crescimento na Periferia (na maioria das vezes começa a despedir pessoas, já repararam?). Não: faz isso porque quer ganhar dinheiro e depois levar os lucros para o Centro (e as vezes para ganhar mais passa por cima de algumas regras, já repararam?). Pronto, tentem meter bem dentro da cabeça esta simples realidade: o que hoje é um influxo de capital amanhã torna-se uma saída de rendimentos. A entrada de capital estrangeiro (para comprar um título público, para financiar a compra de uma segunda casa ou do primeiro TV de plasma de um particular,ou para adquirir uma empresa), amanhã torna-se uma saída de rendimentos para o exterior (lucro ou juros). Entenderam? Hoje entra o dinheiro, na forma de crédito (ao Centro), ou seja, dívida (para a Periferia). Amanhã, o dinheiro sai na forma de passivos na balança de pagamentos, passivos que aumentam ainda mais o défice externo da Periferia, que, tal como a usura ensina, é obrigada a pedir mais capital emprestado, não para financiar o investimento produtivo nem os consumos, mas simplesmente ... para pagar os juros! Dinheiro que no início a periferia nem sequer queria, lembram? Porque no mundo "reprimido" o circuito das poupanças ficava encerrado dentro do país: para a Periferia chegavam as poupanças dos seus cidadãos, que ainda tinham algumas, uma vez que nem tudo tinha sido privatizado e que, portanto, os preços dos serviços essenciais não tinham ainda disparado; no fundo não era assim tão mal, e algo conseguia-se poupar.
Chegamos ao final triste.
Um belo dia a Periferia acorda, com náuseas e vómitos. Uma grande empresa está em crise financeira? Os Bancos com problemas de crédito vencido (percebem que os devedores não vão conseguir devolver o dinheiro)? Enfim, algo acontece, o amor acaba, dando lugar a uma certa impaciência. O Centro começa a duvidar da capacidade da Periferia para pagar suas dívidas. Exige o pagamento de juros sempre mais altos para cobrir o risco; o spread, que era alto, e depois tornou-se nulo, dispara novamente. A periferia entra na espiral da dívida, incha mais e mais, e para saber o resto basta abrir um jornal.
Deixe-me explicar: quem empresta sabe que deve receber o seu dinheiro de volta com juros; não pensa em oferece-lo, não é burro! E isso vale para todos os tipos de empréstimos, entendem?
Exemplo: quem compra uma empresa na Periferia, não o faz para trazer emprego e crescimento na Periferia (na maioria das vezes começa a despedir pessoas, já repararam?). Não: faz isso porque quer ganhar dinheiro e depois levar os lucros para o Centro (e as vezes para ganhar mais passa por cima de algumas regras, já repararam?). Pronto, tentem meter bem dentro da cabeça esta simples realidade: o que hoje é um influxo de capital amanhã torna-se uma saída de rendimentos. A entrada de capital estrangeiro (para comprar um título público, para financiar a compra de uma segunda casa ou do primeiro TV de plasma de um particular,ou para adquirir uma empresa), amanhã torna-se uma saída de rendimentos para o exterior (lucro ou juros). Entenderam? Hoje entra o dinheiro, na forma de crédito (ao Centro), ou seja, dívida (para a Periferia). Amanhã, o dinheiro sai na forma de passivos na balança de pagamentos, passivos que aumentam ainda mais o défice externo da Periferia, que, tal como a usura ensina, é obrigada a pedir mais capital emprestado, não para financiar o investimento produtivo nem os consumos, mas simplesmente ... para pagar os juros! Dinheiro que no início a periferia nem sequer queria, lembram? Porque no mundo "reprimido" o circuito das poupanças ficava encerrado dentro do país: para a Periferia chegavam as poupanças dos seus cidadãos, que ainda tinham algumas, uma vez que nem tudo tinha sido privatizado e que, portanto, os preços dos serviços essenciais não tinham ainda disparado; no fundo não era assim tão mal, e algo conseguia-se poupar.
Chegamos ao final triste.
Um belo dia a Periferia acorda, com náuseas e vómitos. Uma grande empresa está em crise financeira? Os Bancos com problemas de crédito vencido (percebem que os devedores não vão conseguir devolver o dinheiro)? Enfim, algo acontece, o amor acaba, dando lugar a uma certa impaciência. O Centro começa a duvidar da capacidade da Periferia para pagar suas dívidas. Exige o pagamento de juros sempre mais altos para cobrir o risco; o spread, que era alto, e depois tornou-se nulo, dispara novamente. A periferia entra na espiral da dívida, incha mais e mais, e para saber o resto basta abrir um jornal.
Não
é um final feliz.
Obrigado pelos seus contributos no Ladrões de Bicicletas.
ResponderEliminarCumprimentos.
obrigado eu pelos seus artigos!
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