Excerto de algumas reflexões do filósofo marxista italiano Costanzo Preve (1943-2013)
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Costanzo Preve
ELEMENTOS DE POLITICAMENTE CORRECTO
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7.
7.
De um modo geral, o politicamente correcto é simplesmente a
elaboração racionalizada e tardia do sistema de tabus que regulam todas as
sociedades primitivas, que para além das radicais diferenças dos modos
marxistas de produção têm regras que se foram reproduzindo até hoje.
O elemento comum de todas as sociedades humanas é que nenhuma
delas, independentemente da opinião dos relativistas absolutos, dos
historicistas absolutos e dos negadores da existência de qualquer natureza
humana, pode existir e reproduzir-se sem um sistema de interdições.
Este sistema de interdições pode, naturalmente, ser
preservado de varias maneiras e prever diferentes castigos para o seu
incumprimento, desde um coração arrancado até um simples murmúrio de
desaprovação, enquanto o alívio da pena prevista para a sua violação não
depende de um "grau de civilização" genérico, cujos parâmetros nenhum
antropólogo comparatista jamais foi
capaz de verificar, mas simplesmente do facto que a coesão social é alcançada
através de outros métodos. Pensar que o capitalismo é mais civilizado do
feudalismo por não utilizar a fogueira para os dissidentes, apenas com base no
parâmetro abstrato da evolução de uma "sensibilidade" genérica ou até
numa genérica "marcha do progresso", significa não perceber que se,
para garantir a extorsão de mais-valia, fosse necessário o esquartejamento
público (ao qual foi submetido o terrorista Damien em 1758 em Paris), teriamos massacres
na praça pública todos os domingos.
Mas não se pode extorquir mais-valia de um trabalhador, livre
de gravames de escravidão ou feudais, com a ameaça do esquartejamento . Sobre
este ponto (mas praticamente só neste, o resto da sua concepção é horrível)
Michel Foucault está certo.
O elemento de diferenciação reside no facto de que o tabu na
sociedade primitiva é legitimado pelo uso triplo de: mito, magia e totemismo;
enquanto o tabu depois do Iluminismo e do positivismo deve ser baseado num uso ideológico da razão. Mais a frente vou
dar vários exemplos.
Nas nossas civilizações monoteístas, o politicamente correcto
é uma secularização do interdito da blasfémia. Os chamados “leigos” gostariam
de blasfemar livremente contra Deus que, desde cerca de 200 anos, já perdeu qualquer
soberania na legitimidade social; mas gritam contra os chamados
anti-americanismo e anti-semitismo, mal alguém toque na religião americanista
do ocidente e na religião do holocausto. É apenas uma transição funcional e
ideológica de um tabu para outro. Mas é hora de entrar em mais detalhes. O Politicamente
Correcto, de facto, elabora a proibição do tabu e seculariza o interdito da
blasfêmia. E, apesar de ainda não ser suficiente, é necessário perceber bem e
partir deste pressuposto.
8.
O Politicamente Correcto, como elemento constitutivo de uma
nova formação ideológica globalizada, nasce nos anos sessenta e setenta nos
EUA, e não poderia ser de outra forma. Os EUA não são apenas um império
econômico, político e militar, mas também um império cultural.
Todas as formas ideológicas que os EUA exportam pelo mundo,
obviamente adaptadas às diferentes situações históricas e geográficas, derivam
em última análise, de um processo de secularização do primitivo excepcionalismo
messiânico seiscentista do puritanismo protestante. Enquanto no pensamento
europeu (em Hegel, mas também em Marx) o processo de universalização cultural é
concebido de modo racionalista e historicista, no pensamento americano a
universalização é concebida de acordo com o modelo da transmissão bíblica veterotestamentário.
Assim o universal não se configura como possível resultado
final de um processo (iluminismo, Kant, Hegel, Marx, marxismo, etc.), mas como
um elemento já presente desde o início, pronto para ser espalhando sem parar perante
nenhuma fronteira (border), já que o
limite (frontier) é indefinidamente ultrapassável.
O povo escolhido deve ter não só o direito de deixar a terra
do pecado (o Egipto veterotestamentário, a despótica Europa católico-papista), mas
também o direito de massacrar os habitantes temporários da terra prometida (os
amalequitas e filisteus da Palestina veterotestamentária, os povos ameríndios das
américas). Espingarda, Bíblia e licor. Eis a trindade do excepcionalismo
messiânico americano.
9.
A genese do Politicamente Correto, nos EUA, nos anos sessenta
e setenta do século XX, ocorre em duas etapas.
Em primeiro lugar, a gênese propriamente dita. É um episodio
interno à cultura radical da extrema esquerda nos EUA, desde a Velha Esquerda (Old Left), ainda socialista e comunista de
tipo europeu, até à Nova Esquerda (New
Left), pós-socialista e pós-comunista, derrotada ao nível da
"estrutura" e, por isso em busca de vingança ao nível da conduta,
modos de pensar e "superestrutura", em particular no que respeita aos
quatro pontos de: machismo, homofobia, anti-semitismo anti-judaico e racismo contra
os "diversamente coloridos" (negros, índios americanos, etc).
Em segundo lugar podemos falar de uma ampliação generalizada
deste movimento à inteira sociedade, generalização que se torna possível e
necessária pela mutação da natureza da inteira sociedade capitalista global
que, na sua passagem de uma fase historica ainda dialética (ou seja
caracterizada pela dicotomia burguesia/proletariado) para uma fase especulativa
(pós-burguesa e pós-proletária), tem que deixar cair e tornar obsoletos os
antigos modelos racistas, sexistas e homofóbicos.
Apesar de tratar estes dois momentos separadamente, alertamos
o leitor que esta separação é bastante abstracta e académica, porque na
realidade estes modelos estão fortemente entrelaçados.
10.
O ponto de partida é a incapacidade do socialismo, antes, e
do comunismo, depois, de se tornarem factores políticos relevantes na história
dos EUA do século XX.
Desde Sombart à Weber existe uma reflexão europeia secular
sobre o assunto. Muito interessante, mas, por rações de espaço, impossivel de
enfrentar aqui. O ponto de partida da minha reflexão é a ausência de socialismo
e comunismo nos EUA (com a excepção de pequenas minorias para as quais vai a
minha mais alta estima e admiração).
Chamo de Velha Esquerda Americana (Old Left) o conjunto de movimentos que, entre cerca de 1870 e 1960,
tentaram trasformar o socialismo, antes, e o comunismo, depois, em elementos
estruturais permanentes da política americana. O fracasso foi total e trágico.
Especialmente pela violência sistemática de organizações públicas e privadas
que tornou possível este desenraizamento. Uma violência sistemática
constantemente escondida pela corporação corrupta dos contemporaneistas e
americanistas que deixou passar a idéia de que uma generica “opinião pública
americana” tivesse simplesmente e educadamente recusado as chamadas “ideologias
totalitárias europeias”.
Devido à estrutura interna e externa do império
norte-americano, socialismo e comunismo iriam ser, com certeza, fenômenos
minoritários nos EUA, mas não tão irelevantes e residuais como foram e são por
causa deste processo de violência que durou quase um século.
A “lenda branca” do excepcionalismo democrático americano é
simplesmente a outra cara, complementar, da “lenda negra” que foi pregada à
história global do comunismo real do século XX (1917-1991)
11.
Nos anos ‘60 e ‘70 nos EUA concretiza-se a passagem da
chamada Velha Esquerda para a chamada Nova Esquerda (New Left), e é sobre esta passagem que é importante focar a
atenção, porque é lá que devemos procurar a gênese histórica e ideológica do Politicamente Correcto.
Esta passagem é o resultado de dois fenômenos distintos mas
interligados: por um lado, foi o efeito da repressão assustadora pública e
privada das duas décadas anteriores (1945-1965), que destruiu qualquer
possibilidade de existência pública de organizações socialistas e comunistas de
tipo europeu, que obrigou os militantes résiduos a recuar para as chamadas
batalhas culturais (é o contexto da primeira recepção das obras do Antonio
Gramsci, visto como o grande teórico da luta comunista na super-estrutura); por
outro, foi o efeito da desmistificação do antigo mito da URSS, amplificada
depois de 1956 pela desestalinização oficial soviética, e também pela crescente
prosperidade dos padrões de vida da classe trabalhadora americana, que atingiu o
seu ponto mais alto em 1973, e desde então tem vindo constantemente a caír (consequencia,
também, da transição de um modelo capitalista predominantemente industrial, para
um modelo capitalista predominantemente financeiro).
Acredito que seja igualmente aplicável para os EUA o
diagnóstico de Augusto Del Noce sobre a insuficiência estrutural do
progressismo historicista na compreensão da natureza reprodutiva da totalidade
capitalista. Resumindo: a "esquerda" acredita que o keynesianismo, na
economia, e a liberalização dos costumes, na cultura, sejam etapas de abordagem
progressiva para uma sociedade socialista e comunista (num sentido humanista e
anti-estaliniano), pois acredita que, por sua própria insuperável natureza, a
base do capitalismo tenha características racistas, homofóbicas, sexistas,
machistas, autoritárias, etc.
No entanto, confrontada com o facto inesperado que o
capitalismo, pela sua própria natureza reprodutiva, tende a superar o seu
primeiro momento constitutivo (efetivamente racista, machista, homofóbico, sexista,
etc.) para ampliar a sua base de consenso e de gestão activa, acabando por
incluir negros, mulheres, homossexuais, etc., a esquerda acaba por perder
qualquer teoria de referência, e o lugar onde colocar as suas bases culturais identitárias.
12.
Quero esclarecer logo um possível mal-entendido, desagradavel
e grotesco. Pessoalmente, considero incondicionalmente
positivo que os velhos e desagradáveis "preconceitos" contra
judeus, negros, mulheres e homossexuais sejam ultrapassados. É um bem que o Politicamente
Correto proíba a manifestação pública de desprezo pelos judeus, negros,
mulheres e homossexuais. Estou disposto a reconhecer este facto positivo numa
maneira clara e sem equívocos tortuosos. Só assumo o direito inquestionável de formular
sobre o assunto uma opinião histórico-dialética, que, naturalmente, não deve
ser confundida com a aprovação a
posteriori dos anteriores "preconceitos".
13.
A principal característica do Politicamente Correcto é,
obviamente, evitar que se fale dele num modo não programaticamente
politicamente correcto. Esta é uma característica de qualquer tabu (falar dele
é já violar o tabu) e religião (é blasfemia falar em forma não religiosa sobre
as suas origens e a sua função histórica).
Ignorando este interdito canalhesco, vou passar a analisar
agora a gênese teórico-filosófica e aquela sócio-histórica do Politicamente
Correcto. Embora a segunda, estrutural, seja mais importante do que a primeira,
super-estrutural, vou começar a partir da primeira. O leitor poderá inverter a
ordem se assim desejar.
14.
A gênese teórica do Politicamente Correcto está num dos tantos
prognósticos errados da tradição do pensamento marxista, e mais em geral de
"esquerda". Baseia-se naquele pressuposto que em inglês é chamado whisful thinking, ou seja, o pensamento
que troca os seus desejos por realidades históricas reais. Todos caímos neste erro,
mas apenas o pensamento de esquerda elevou a Ilusão à Arte e Ciência.
Os diagnósticos ilusórios são muitos, mas aqui vamos analisar
apenas dois, o segundo dos quais, em particular, é o que mais nos interessa nesta
discussão.
A primeira ilusão, infelizmente suportada pelo “Grande Fundador
da Empresa”, ou seja, Karl Marx, consiste num diagnóstico e prognóstico do
capitalismo baseado na infeliz previsão do seu colapso, devido a uma combinação
de razões, que resumo aqui em três, desculpando-me por não ter o espaço para
exibi-las de uma forma mais decente.
Em primeiro lugar, o carácter revolucionário e anti-capitalista
da classe operária, vista como a vanguarda politicamente organizável do
trabalho coletivo cooperativo associado, desde o gerente da fábrica até o último
trabalhador, aliada com as forças intelectuais libertadas pela grande produção
industrial, definida por Marx com a expressão inglês General Intellect. Em segundo lugar, a consideração das crises
capitalistas (variadamente classificadas) não como um momento cíclico
fisiológico de reconstituição das condições para uma nova fase de acumulação,
mas como sinal de brecha irreversível do sistema. Em terceiro lugar, a alegada
incapacidade do capitalismo para desenvolver as forças produtivas sociais, causando
estagnação e necessidade de "mudança de manobrador" desde a burguesia
ao proletariado e seus aliados. Resumindo, todas estas três previsões estão
completamente e totalmente erradas.
...
A segunda ilusão, mais grave do que a primeira, permanece
mesmo em caso de abandono total da primeira, sendo mais enraizada e, portanto,
mais perigosa e difícil de ultrapassar. É a ideologia do progresso, de origem iluminista,
integralmente e unicamente burguesa, desde o início completamente alheia às
classes mais baixas, pela qual o futuro é sempre, por princípio, melhor do que
o passado. Apesar de alguns pensadores críticos muito raros (Benjamin, etc.), a
religião do progresso manteve-se, e continua a ser, a única religião popular da
esquerda européia, dentro de um povo atordoado pelos meios de comunicação que
já não vai à igreja e é convidado ao odio pela cultura literária e filosófica
dos "antigos", que sendo tais devem ser necessariamente
"ultrapassados".
A partir desta religião para idiotas nasceu a ideia que o
capitalismo só conseguiria desenvolver-se com base no paternalismo machista,
racista, homofóbico e anti-semita, e que a remoção deste baluarte conservador iria
abrir o caminho para uma sociedade mais justa e igualitária.
A experiência dos últimos quarenta anos (1968-2008), um
período histórico bastante longo para permitir uma avaliação mais profunda,
demonstra exatamente o contrário. Em quatro décadas o capitalismo liberalizou
os costumes, contrariou racismo, homofobia, sexismo e anti-semitismo (transferindo
o papel do anti-semitismo para a islamofobia e erigindo o povo judeu para o
sacerdócio levítico da nova religião holocaustica
global, “destaque” do politicamente correto), e ao mesmo tempo, criou uma
sociedade oligárquica em que as desigualdades sociais são muito maiores, aggressivas
e repugnantes de quarenta anos atrás.
15.
O mencionado no parágrafo anterior é apenas ideologia superestrutural
para parvos. Marx não era um tolo, e o diagnóstico dele é compreensível tendo
em conta que foi feito entre 1840 e 1880. Mas a conservação dos três pontos em
questão entre 1968 e 2009 revela a decadência incurável de grupos sociais
residuais liderados por políticos niilistas e intelectuais ignorantes. Um
navegador micênico do ano 1000 a.C. tinha o direito de pensar que a Terra era
plana. Um skipper de 2009 já não tem esse direito. Os problemas do chamado
"marxismo" estão todos aqui, e tais permanecerão até a escória
política e intelectual, que impede uma sua reforma radical e um relançamento estratégico,
ser totalmente removida.
No entanto, deve haver algo por trás deste conservadorismo
para totós. É um fenômeno que corresponde ao que os marxistas como Lenin costumavam
chamavar "aristocracia operária", ou seja aqueles setores da classe
trabalhadora mais bem pagos, seja pelos lucros extras de origem imperialista,
seja pelo aumento da productividade da nova industria capitalista. A velha
pequena burguesia, matriz histórica de inquietação política no mundo capitalista,
historicamente tentada tanto pelo fascismo como pelo comunismo, foi
gradualmente substituída por uma nova classe média completamente diferente. É a
sistemática confusão entre estas duas realidades (promovida pela sinergia
mortal entre o analfabetismo sociológico dos filósofos eo analfabetismo
filosófico de sociólogos) que está na base do Politicamente Correcto como ilusão socialmente necessária da fase
histórica em que estamos vivendo, que não é absolutamente a transição entre o “Moderno”
e o “Pós-moderno”, mas uma transição entre uma fase do capitalismo,
predominantemente industrial e nacional, para outra, essencialemente financeira
e trans-nacional/globalizada.
A pequena burguesia do passado era guiada na sua maioria
estatística (num contexto histórico de expectativas crescentes de promoção
social de indivíduos e grupos) por projectos de integração no capitalismo, e na
sua minoria sensível por inquietações indiferentemente fascistas ou comunistas.
Com o termo “indiferentemente” não quero propor uma equação “totalitária” entre
fascismo e comunismo, já que pessoalmente considero (simplificando
horrivelmente e violando o Politicamente Correcto) o comunismo muito melhor do
fascismo, e fascismo e comunismo muito melhores do tradicional imperialismo
anglo-saxónico e francés, máximo responsável pelo banho de sangue da Primeira
Guerra Mundial e matriz de todo o mal do século XX. Abomino Auschwitz,
Hiroshima, Katyn e Kolyma, mas os quatro episódios derivam, em última análise,
do 1914 e do Tratado de Versalhes, de 1919. E com isso expus o meu balanço
pessoal, politicamente incorrectissimo, sobre o século XX apenas concluido.
A nova classe média, grupo social completamente desprovido de
ambições de liderança política (daí a sua propensão ao “pensamento fraco”,
sofisticada elaboração da sua renúncia em governar a totalidade social e a sua
reprodução, em nome de uma irresponsabilidade lamentosa e auto-referencial),
não precisa elaborar nenhuma “consciência infeliz” (é por isso que detesta o
Hegel e ficou “desiludida” com o Marx), e está totalmente “satisfeita” no plano
material, embora deva aceitar, como resultado de uma fatalidade económica inescrutável,
as "expectativas decrescentes". Está, portanto, pronta para aceitar o
Politicamente Correcto como seu novo perfil de identidade filosófica e de
pertença.
16.
E agora, após a gênese histórica e teórica, vamos passar para
Politicamente Correto real e actual como formação ideológica relativamente
coerente de um sistema supersticioso de interdições e punições de blasfêmias
sociais secularizadas. Vou limitar a minha análise a Europa Ocidental "Carolíngia",
ou seja, um grupo muito pequeno de países como Itália, França, Alemanha,
Espanha e pouco mais. Colônias culturais dos EUA, especialmente Itália e
Alemanha, as quais juntou-se recentemente a França, depois do desmantelamento
do meritório perfil nacionalista do general de Gaulle.
Neste ensaio, o leitor não pode esperar uma exposição
sistematicamente satisfatória do Politicamente Correto, mas só um esboço
inicial amplamente imperfeito, e "calibrado" sobre a situação
italiana, um das mais degradadas de toda a Europa, por razões históricas que
têm que ser examinadas separadamente. Resumindo, vamos começar com apenas cinco
elementos fundamentais do Politicamente Correcto em Itália:
1)
Americanismo como condição de um posicionamento
interno num mundo externo considerado como pré-existente e incontestável.
2)
Religião Holocaustica e sacralizada do sacerdócio sionista,
como novo rito religioso europeu, em tempos de crise dos antigos monoteísmos
prescritivos e intrusivos da liberalização total dos corpos e da manipulação
dos espíritos.
3)
Direitos humanos das minorias étnicas e sexuais como
uma nova legitimação do direito de intervenção militar unilateral, fora de
qualquer direito internacional.
4)
Preservação ilimitada do
anti-fascismo na
completa ausência de fascismo.
5)
Dicotomia Bipolar Direita/Esquerda como manipulação do espaço político
e como disfarce do partido único da
reprodução capitalista.
Estamos
apenas no começo, mas o leitor tem que se contentar. No entanto, se não ficar
escandalizado, como seria natural, provavelmente não fui suficientemente
radical. Quem ficar horrorizado por estas argumentações é certamente um bom súdito
do Politicamente Correto, e tem à sua frente boas possibilidades de carreira e
cooptação. Quem as aceitar como hipótese de discussão, ainda que para as
suavizar ou edulcorar, sem reijeta-las a priori, ainda não está perdido. Quem,
pelo contrario, concordar, saiba que nunca vai ter qualquer carreira pública, ou
tornar-se um professor universitário de filosofia, história ou ciências
sociais, e estará sujeito a ser silenciado e/ou difamado. È portanto
desaconselhado defender essas teses antes da reforma.
17.
Americanismo não significa, de modo algum,
defender sempre servilmente tudo aquilo que os Governos dos EUA decidem fazer. O
verdadeiro americanismo, pelo contrário, consiste em aconselhar o imperador acerca
daquilo que devia fazer para ser mais amado pelos seus súditos, mais
multilateral, menos unilateral, e geralmente expressão de soft power. O verdadeiro americanista recomenda fechar Guantanamo,
desencorajar o Ku Klux Klan, eleger para postos de comando o maior número
possível de negros, mulheres, homossexuais, etc. O verdadeiro americanista quer
reconhecer-se na potência imperial que ocupou o seu país com bases militares e
depósitos de bombas atômicas, por décadas desde o fim da Segunda Guerra Mundial
(1945) e da dissolução de todos os pactos militares "comunistas"
(1991). O verdadeiro americanista quer ser súdito de um império bom, e,
portanto, fica constrangido em ver o império, às vezes, portar-se mal e exagerar.
Ao massacrar o Iraque o império não cometeu um crime, mas um erro. O
americanista utiliza dois registros linguísticos e axiológicos diferentes, o
código do crime e o código do erro. Todos podem cometer erros!
O Hitler, o
Mussolini, os japoneses, os comunistas, o Milosevic, o Mugabe, a junta militar
de Myanmar, os talibãs, e assim por diante, cometeram e cometem crimes.
O Churchill
que massacrava curdos e índianos, o Truman que lançava a bomba atômica sobre
Hiroshima, ou o Bush que invadia o Iraque em 2003, só cometeram erros lamentáveis.
O
americanista acusa de anti-americanismo todos aqueles que afirmam que os EUA agem
como um império. Atinge, desta forma, o maior grau de palermice, ao acusar
paradoxalmente de anti-americanismo a própria cultura americana, que afirma
claramente de ser um império, de querer ser um império, e de querer continuar a
ser um império, sem querer desistir dessa excepcionalidade messiânica de modo
nenhum.
O Americanismo,
portanto, não consiste num conjunto variável de opiniões sobre actos
específicos dos EUA, mas num pressuposto de interioridade
ilimitada naquele mundo, dentro da qual negociar posteriormente as diferentes
modalidades de adesão.
18.
A religião holocáustica é uma religião
exclusivamente europeu-ocidental, e as peregrinações a Auschwitz são o
equivalente da Virgem de Guadalupe, no México, e da Casa de Confúcio, na China.
Falar na religião
holocáustica não tem nada a ver com o juízo sobre o moderno anti-semitismo europeu
e sobre os projetos racistas de estermínio do Hitler e seus aliados, mais ou
menos "bons", recalcitrantes ou entusiastas. O meu juízo sobre ambos
os fenomenos é incondicionalmente negativo, e não tenciono tomar o caminho escorregadio
da contextualização, do relativismo, etc. Mas, sem querer encontrar justificações
hipócritas, não se pode falar em Mal Absoluto, simplesmente porque não existem males absolutos; todos os
males cometidos por homens são relátivos à epoca e aos indivíduos que os
cometeram.
A religião
holocáustica não tem igualmente nada a ver com o chamado "negacionismo".
O Politicamente Correcto interdita legalmente qualquer controvérsia sobre modalidades
e número dos exterminados por Hitler entre 1939 e 1945. De facto a única
disputa historiográfica ilegal da história contemporânea.
Sigmund
Freud propôs em Totem e Tabu uma hipótese
estimulante pela qual o sentimento religioso nasce da elaboração posterior de
um complexo de culpa por um crime cometido anteriormente (no seu caso, a morte
do pai e o banquete canibalesco dos seus restos mortais). Esta hipótese não me parece
nada verossímil, mas aplica-se muito bem ao sentimento de culpa holocáustico. Europeus
e alemães massacraram os judeus, e terão que pagar para sempre por este crime
transformando o Holocausto numa religião expiatória permanente, aceitando a
ocupação militar perpétua de bases americanas simbolicamente incumbídas da
tarefa de impedir que os maus europeus possam regressar de novo a um Hitler ou
a um Stalin, e, deste modo, condenando à irresponsabilidade e à subordinação infernal
(o inferno é para sempre; o purgatorio é temporário, mas acho que sessenta
anos, 1945-2005, seriam suficientes) todas
as gerações de europeus nascidas depois de 1945.
A ideia de responsabilidade colectiva, totalmente
alheia ao espírito e à letra da filosofia grega (centrada na alma do indivíduo
singular, psique), é um repugnante legado
assírio-babilônico, ou melhor, uma sua tortuosa secularização. Eu nasci em 1943,
e não me sinto, de modo nenhum, nem fui, de forma alguma, responsável pelo
chamado Holocausto. O povo alemão, com a excepção daqueles que participaram
activamente, não é responsavel pelo Holocausto, nem o povo americano por
Hiroshima ou outros delitos da sua classe dirigente, nem o povo judeo pelos
crimes dos nazis sionistas.
Ao aceitar
a religião holocáustica e o irracional princípio assírio-babilônico da
responsabilidade colectiva os europeus aceitaram em poder serem chantageados
para sempre. Esta idolatria deverá ser demolida e substituída (e é possivel
fazê-lo, se houver vontade) a partir de uma reavaliação racional da história do
século XX, sem males absolutos e sem demônios, mas que acabaria por chegar à
mesma total inaceitabilidade de todos os tipos de racismo e violência.
A religião holocáustica
é, portanto, bivalente, já que serve tanto para a escravização simbólica da
Europa, chamada a expiar para sempre,
tanto para a justificação indireta das atrocidades racistas do colonialismo sionista.
Há, no
entanto, um terceiro aspecto menos evidente. O capitalismo ultrapassou há muito
tempo a fase de acumulação ascético-weberiana e a fase freudiana da necessidade
do Superego paternal bigodudo, barbudo e peludo com complemento amoroso maternal
apertado num asfixiante corpete de barbatanas de baleia, só sobrando, desta
forma, a sua base individualista e consumista. O velho Deus monoteísta pode ser
destronado e deixado apenas para os seguidores de Padre Pio e São Januário. Já
não há mais família, mas apenas homo
e hetero. Já não há professores, mas
apenas animadores socioculturais. Já não há identidades, mas bonecos de
televisão intercambiáveis. Nesta sociedade onde é proibido proibir qualquer
coisa, e a única coisa proibida é a luta por uma sociedade diferente, a antiga
religião invasiva dos costumes familiares e sexuais deve ser desmantelada e
deslegitimada. A religião holocáustica, pelo contrário, é perfeita em si mesma,
porque não precisa da normatividade familiar e sexual, mas exige apenas a elaboração
interminável do sentimento de culpa por uma responsabilidade colectiva de tipo assírio-babilônico.
19.
A teologia dos direitos humanos é, hoje em
dia, um verdadeiro pilar do Politicamente Correto, pela sua valência multifuncional:
resposta ao sentimento de culpa do consumismo individualista, à procura de uma
compensação moral, em bombardear estados-canalhas
em nome dos direitos humanos e sentir-se “envolvido” na luta do Bem contra o
Mal; legitimição das guerras de agressão imperialista dos EUA, feita por razões
materiais, como o petróleo e o cerco geopolítico de futuros concorrentes
estratégicos, mas "encobertas" por razões humanitárias pseudo-universalistas
(libertar as mulheres afegãs do burqa, os iraquianos de um ditador bigodudo nacionalista,
etc.).
De um ponto
de vista histórico, a teologia dos direitos humanos (teologia idolátra ao
serviço do excepcionalismo messiânico imperial, aprovada pela claque servil dos
intelectuais europeus ex-marxistas) pode ser definida como uma secularização individualista manipulada do velho
jusnaturalismo. A teoria dos direitos naturais, ou jusnaturalismo, é uma
teoria que teve antecedentes antigos, estóicos e medievais, mas é
essencialmente nova, e representa a primeira
formulação teórica organizada de contestação da ordem sacralizada
feudal-aristocrática, que por um milênio legitimou-se directamente pela
religião.
A teoria da
lei natural foi baseada na razão pura, como se Deus nunca tivesse existido (etsi Deus non daretur).
O Ernst
Bloch tinha razão em argumentar que o direito natural devia ser algo
revindicado pelo comunismo como uma herança para aceitar e aproveitar.
A economia política Inglês (Smith, Ricardo) nasceu com base numa teoria da natureza humana do David Hume, uma teoria elaborada contra o direito natural, considerado um conjunto de disparates metafísicos completamente improváveis e abstractos. A economia política, ou seja a a única teologia monoteísta e idolátrica possível do capitalismo, não admite uma fundação externa (a vontade de Deus, direitos naturais, contratos sociais, utopias igualitárias, etc.) e deve basear-se em si mesma. A sua auto-fundação é, de facto, baseada na relação de troca como a única relação normal da natureza humana. A teoria da natureza humana do Hume não é, portanto, uma derivação do direito natural, mas, pelo contrário, uma arma de guerra ideológica contra o direito natural.
A economia política Inglês (Smith, Ricardo) nasceu com base numa teoria da natureza humana do David Hume, uma teoria elaborada contra o direito natural, considerado um conjunto de disparates metafísicos completamente improváveis e abstractos. A economia política, ou seja a a única teologia monoteísta e idolátrica possível do capitalismo, não admite uma fundação externa (a vontade de Deus, direitos naturais, contratos sociais, utopias igualitárias, etc.) e deve basear-se em si mesma. A sua auto-fundação é, de facto, baseada na relação de troca como a única relação normal da natureza humana. A teoria da natureza humana do Hume não é, portanto, uma derivação do direito natural, mas, pelo contrário, uma arma de guerra ideológica contra o direito natural.
O Hegel e o
Marx, embora por razões opostas às de Hume, também foram adversários do direito
natural.
Por razões
que não posso discutir aqui em breve (mas seria interessante fazê-lo), eles
acreditavam que o direito natural não fosse adequado para legitimar a comunidade
política estadual moderna (Hegel), fosse perigosamente inclinado a legitimar o
extremismo jacobino do Robespierre de base Rousseauniana (sempre Hegel), e não prestasse
como fundação da concepção materialista da história, na medida em que tinha
sido ultrapassado como ideologia setecentista da burguesia revolucionária
(Marx).
O
pensamento burguês depois de 1795 (os termidorianos) abandonou inteiramente o
direito natural, considerado potencialmente perigoso como fator de possivel legitimação
duma revolução social (Bloch), para adoptar o chamado "positivismo
jurídico". Por trás dessa expressão pomposa estava simplesmente o abandono
de qualquer fundamento filosófico da sociedade, já que "positivismo
jurídico" significa simplesmente que as decisões dos legisladores
capitalistas são válidas em si, e não necessitam de qualquer legitimidade
filosófica externa ao próprio princípio da lei. Reiterou-se, assim, a
brutalidade do ponto de vista dos imperadores medievais, com o príncipe a
decidir o que era legal e o que não era (quod
principi placuit legis habet vigorem - O que agrada o príncipe tem força de
lei).
A nova
necessidade do capitalismo dominante, para se opor às novas anomalias fascistas
e comunistas, não previstas na ciência política clássica, levou a uma
redescoberta instrumental e hipócrita do direito natural. Insisto no caráter
instrumental desta descoberta, puramente ideológica e nada humanista ou
universalista. Karl Schmitt observou corretamente que, em nome da Humanidade
legitima-se hoje uma guerra sem tréguas, em que o adversario se tornou o Inimigo
Absoluto (o "desumano").
O discurso seria
muito comprido. Eu, resumidamente, concordo com as teses de Alain de Benoist a
favor das soberanias nacionais contra a ideologia dos direitos humanos e as
reivindicações intervencionistas.
Continuo apreciador
da teoria dos direitos naturais, porque considero o homem um animal social,
político e comunitário (Aristóteles), um animal dotado de linguagem, de razão e
de cálculo distribuitivo e justo dos recursos (sempre Aristóteles), um ente
natural genérico (Marx), etc.
A teoria terá
que ser retomada e valorizada num futuro ainda não determinável. Por enquanto, na
situação em que vivemos, a teoria dos direitos humanos não existe, e o seu
fantasma ideológico desempenha o mesmo papel da teoria racial na época do Hitler.
Peço
desculpa pela pacatez e moderação da comparação!
20.
A
manutenção Ilimitada de um anti-fascismo
cerimonial na total ausência de fascismo é a pior praga ideológica da paisagem
cultural italiana.
A minha
opinião historiografia sobre o fascismo é fortemente negativa; pelo contrário,
a minha opinião sobre o comunismo no mesmo período, é largamente positiva. Do
chamado "Estado liberal" não falo, já que o considero responsável
pela Primeira Guerra Mundial e seu banho de sangue. Sou, portanto, um anti-fascista retroativo total, frase
totalmente formal e vazia, porque retrospectivamente também sou um adepto do Mário
contra o Sula, dos Gracos contra o Senado e do Constantino XII contra o Muhammad
II.
A minha consideração
sobre o caráter nocivo do anti-fascismo na completa ausência de fascismo não é
inspirada por uma avaliação historiográfica ou política favoravel ao fascismo,
mas pela sua função de mecanismo ideológico de impedimento à avaliação da
actualidade.
A Constituição
italiana ficou destruída em 1999, com o bombardeamento da Jugoslávia, e, ainda
assim, estes crime é ignorado, pela propensão a interpretar os acontecimentos
de hoje com base numa distinção que acabou de vez em 1945.
No entanto,
mesmo a loucura tem uma explicação racional. O anti-fascismo na completa
ausência de fascismo foi depois de 1956, a nova trincheira de legitimação do
mastodôntico PCI após a deslegitimação kruschovista do Stalin. Para além disso
o anti-fascismo na total ausência de fascismo permite o “jogo das caras”, onde
substituir, na caixa chamada “fascismo”, crominhos de fascistas sempre novos
(De Gasperi, Craxi, as Brigadas Vermelhas, Berlusconi, etc...). Com a chegada
do americanismo (os EUA, o poder
anti-fascista que nos libertou) da religião
holocáustica (o fascismo antisemita das leis raciais) e por fim da teologia dos direitos humanos (Ahmadinejad
fascista, Mugabe fascista, Milosevic fascista, etc...) o anti-fascismo na total
ausência de fascismo está destinado a florescer gloriosamente.
21.
Na maioria
dos países da Europa Ocidental a dicotomia Direita / Esquerda, que teve grande
importância durante quase dois séculos, hoje virou uma simples prótese de manipulação politológica,
cuja conservação é funcional apenas para o espetáculo capitalista das falsas
oposições num mundo simulado (Debord, Baudrillard).
Esta
dicotomia é o resultado de uma secularização imperfeita de uma anterior fundação
religiosa da legitimização global da sociedade classista. A fundação anterior tinha
natureza religiosa, dicotomia vertical Deus / Homem, Jerusalem / Babilônia, e
assim por diante.
Nesta legitimização
vertical, o herege era considerado automaticamente um potencial rebelde
político e, portanto, justamente, queimado vivo.
O próprio
Dante, e até o pacífico Francisco de Assis, não teriam tido nada a dizer, e o
máximo gesto de humanitarismo teria consistido no pedido ao carrasco para o
estrangulamento do pecador antes da honesta asfixia e da assadura
misericordiosa das suas carnes pecaminosas.
Mas a
burguesia não podia buscar a sua legitimização na religião, e certamente não sò
pelo facto conjuntural que os bispos hipócritas ainda estivessem do lado da
aristocracia, mas por uma razao mais estrutural, que muitas vezes passa
despercebida aos superficiais, pela qual o capitalismo tem que auto-fundar-se
de modo absoluto no conceito de troca como dimensao principal da natureza
humana e não pode tolerar um Deus acima dele, um Deus que, na altura era “aristocrata”,
mas que pode tornar-se “comunista” a qualquer momento (o Jesus que chicoteia os
mercadores do templo e pode tornar-se incontrolável). O capitalismo não pode defender
a sua causa com às opiniões de uma subjectividade transcendente.
A
transposição da legitimizaçao vertical Homem / Deus para a legitimizaçao horizontal
Direita / Esquerda, é, portanto, um resultado estrutural (ou mais exatamente
super-estrutural) da transição do feudalismo tardio ao proto-capitalismo burguês.
Mas aqui surge o calcanhar de Aquiles filosófico da esquerda, o desprezo pela
religião, como residuo supersticioso de uma fase jà ultrapassada da história
humana. Um conceito que nasce com os materialistas franceses do século XVIII, passa
pelo Comte e o Feuerbach, e é aceite totalmente pelo Marx e os marxistas
posteriores, acabando por poluir a concepçao do mundo da esquerda, até o actual
secularismo ultracapitalistico.
Pessoalmente
não sou crente nem praticante. Não acredito em nenhum Deus pessoal, considero
qualquer personalização do divino uma indevida e supersticiosa antropomorfizaçao,
mas considero a religião, bem como ciência, arte e filosofia, dados permanentes da antropologia humana e como
tais destinados a durar tanto quanto vai durar a humanidade.
A esquerda
(veja-se a interpretação de Rousseau por Cassirer), pelo contrario apoiou,
tanto na forma secular-burguesa como naquela stalinista-comunista, a ideia de
substituir a religião com a "razão".
...
Com base em
que princípio poderia afirmar que a ciência é maior do que a religião (ou
vice-versa)? Nisto não hà nenhum relativismo. Não sou um relativista.
Simplesmente, a verdade apresenta-se de várias maneiras, geralmente
complementares.
Em segundo
lugar, a dicotomia Esquerda/Direita nasce por acaso na colocação nos bancos da
Assembléia Legislativa Francesa de 1791. Mas isso pressupõe um século de
Iluminismo e de debates iluministas.
É bom saber
que a esquerda precede Marx e o marxismo, que com ela se envolvem num momento
posterior, quando já estã configurada pelo código iluminista originario com
base na ideia de progresso, juntamente com outras idéias satélite
(cientificismo, crítica da religião, secularismo costitucionalistico, etc.). O
novo codigo marxista é aceite so na medida em que respeita todos os
pressupostos iluministas (as criticas ao progresso do Adorno e do Benjamin
ficarao sempre perifericas, marginais e irrelevantes), apesar de um “obscuro”
pensador (obscuro porque desconhecido a esquerda, que o considera um tolo que
justifica qualquer coisa acontecida, tipo um Barba Azul) chamado Hegel, cuja
critica ao caracter abstracto do iluminismo nao foi devidamente levada a serio
pelo Marx.
Em terceiro
lugar a dicotomia Direita/Esquerda, longe de ser ilusória, funcionou pelo menos
por duzentos anos (1789-1989), e só terminou quando a esquerda aceitou integralmente
a sociedade capitalista como meio intranscendivel da competição política entre ex-extremos
agora homogeneizados. Neste momento, para mim, a dicotomia perde qualquer
interesse remanescente, e torna-se meramente uma prótese de manipulação politológica, aromatizada com perfis
psicológicos à Teofrasto. A passagem do Capital
de Marx aos Caracteres de Teofrasto
passou despercebida aos estupidos mas é Teofrasto, e não Marx, hoje, o
principal pensador desta prótese de manipulação politológica, reduzida a uma
galeria de personagens e perfis teatrais: o trabalhador sindicalizado de esquerda;
a dona de casa obcecada pela tv comercial de direita; o estudante roqueiro de
esquerda; o contabilista de direita; o professor maníaco da escola psicopedagógica
de esquerda; o chefe de cirurgia de direita; o velho pensionista resmungão comunista;
o sacerdote messiânico alucinando de direita; o magistrado ideológizado de
esquerda; a atriz medíocre e um bocado vaca de direita; os funcionários
públicos de esquerda; o povo dos recibos verdes de direita; etc.
22.
E aqui
podemos concluir com uma série de previsões artesanais. Quero relembrar ao
leitor que este ainda não é o Tratado sobre Politicamente Correto que pretendo
escrever, e em que os cinco temas principais (americanismo, religião holocaustica,
teologia dos direitos humanos, anti-fascismo em ausência de fascismo, dicotomia
Esquerda/Direita como prótese de manipulação politológica) serão discutidos de
forma mais precisa e analítica. Na espera da “refeição”, que será grande e
abundante, o leitor terà que contentar-se com estas “entradas”.
Deixo aqui
a pergunta: quanto tempo vai durar esta pestífera formação ideológica de
manipulação e especialmente de paralisia?
Obviamente não
consigo responder. Mas ainda posso formular algumas hipoteses: de curto, médio
e longo prazo. Não há absolutamente nenhuma possibilidade (e gostaria de sublinhar
a palavra "nenhuma") que, no curto prazo, essa formação ideológica
odiosa possa desaparecer, e eu acredito que nem sequer possa ser
significativamente enfraquecida. Por muitas razões, que vou resumir aqui por
brevidade, em apenas dois.
Em primeiro
lugar, o Politicamente Correto manifesta-se hoje como superestrutura ideológica
ideal (no sentido darwiniano de “fittest”,
ou seja mais apropriada) do capitalismo globalizado. Apesar da crise financeira
do segundo semestre de 2008 o sistema ainda está de pé, ainda, infelizmente, com
grandes reservas (em particular, a corrida para o individualismo capitalista em
países como a Índia, a China, a própria Rússia, etc.) e não se vê no horizonte
ainda nada sério (o equivalente de 1917 em Rússia); por enquanto há apenas
gesticulaçoes midiàticas de palhaços marginais. Novos Robespierres e Estalines infelizmente
ainda não estão no horizonte.
Em segundo
lugar, a geração intelectual europeu-ocidental, que na década ideológica
fundamental 1975-1985 desmantelou a visão classista e anti-capitalista da sociedade
para entronizar em seu lugar a indolência pós-moderna, está no poder nos três
aparelhos: da classe política, do circo midiático e do clero universitário. E
não só está no poder, o que é evidente sem necessidade de complicadas
demonstrações sociológicas, mas chegou a
saturar todos os poros de respiração espiritual da sociedade. O poder
intellectual é integralmente Politicamente Correcto, tal como era cristão
durante a Idade Média...
O médio
prazo é de todo imprevisível. Todo depende da possibilidade que da crise social
possam surgir movimentos politicos inéditos, capazes de ultrapassar a dicotomia
Direita/Esquerda. Pouco provavel na minha opinião. O ideal para o Poder seria canalizar
toda a contestação social no manejavel teatro dos movimentos de esquerda contra
movimentos de direita. Um scenário ideal seria uma conflitualidade drogada
entre grupos como: Partido Racista dos Inimigos dos Pretos; Partido para a Proibição
dos Homosexuais; Partido Católico para a Restauração da Inquisição; Partido do Linchamento
Legal dos Diferentes; Partido dos Verdadeiros Valores do Ocidente contra o Islão;
Partido Trotzkista Revolucionario Integral; Partido Leninista dos Precários;
Esquerda Crítica; Esquerda Antiberlusconiana das Pessoas Cultas e Sensíveis;
Associação Todo o Poder aos Magistrados Contra a Corrupção; etc...
Relativamente
ao longo prazo, sendo um pessimista
geracional e um optimista histórico,
tenho a certeza que esta abejecta manifestação irá desaparecer. Quando? Suspeito
que já não terá nada a ver comigo nem com os actuais jovens de vinte e poucos
anos.
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